25.1.2017

todos os dias um homem se depara com sua perda
todos os dias um homem se depara com sua perda
todos os dias um homem se depara com sua perda
mas a perda é uma falácia
e o homem também

27.11.2016

atibaia
alguém vindo de atibaia
não um lugar
mas como soa

14.10.2016

prallana

a respiração dos outros
depois a cabeça
abaixo
os ombros
e o resto
como uma forma
se move
já percebida
a reconhecer
uma forma
aparente
os valores
em si mesma
uma forma
a violência do ar
ao redor
os gases
ao redor
por causa
da forma
uma forma não
deve não pode
ser uma forma
senão violenta
então como trocar beijinhos
sem a morte injusta
e burra das coisas
como dizer -
e de fato se deve é dizer -
a respiração dos outros
depois a beatitude
a beatitude você sabe
de trocar beijinhos
com a morte injusta e burra
das coisas

11.12.2015

nem era alguém apagar-se soba palavra
nem era não apagar-se soba palavra

média a voz que atravessa não ao meio de todas as coisas

24.06.2016

prallana

gato se lambe
em tudo que olhamos
e no pensamento
e na memória
e no amor o quanto há
gato se lambe onde quer que
saibamos
e não sabemos
eis a dimensão
nossa contingência
objeto indo
objeto vindo
algo se move
com outra força
esperamos a passagem do ano
a hora de comer
objeto indo
objeto vindo
suas mãos vazias
e o que elas comovem
um gesto porassimdizer
se principia ou se finda
não temos interesse
eis a dimensão
nossa contingência
gato se lambe
e você via
e você sabe
e tem os espaços totais
gato se lambe já
gato se lambe ainda
gato se lambe
com vistas ao futuro
eis a dimensão
nossa contingência

23.06.2016

o bocadinha é a coisa toda
se um bicho vo'ali
um bicho voa
e se rasteja engatinha anda
ainda
se clementina ressuscita aparece na beira
do biloca
faz a coisa
em si
se o biloca corre rente
ao bocadinha
corre
um sofá boiando no biloca
um sofá no mundo
e se clementina não ressuscita
continua morta
e se ninguém pode nadar no biloca
habitar
o bocadinha
é a coisa toda

16.06.2016

manama no miama
manama no miama maz
manama no miama
manama no miama nada
no miama nam
manama no miama
no mifaz
mimo no mifaz
niño no mifaz
nata manama no mimata
manama mimata nam
manama nam
no mimata nam
manama para

01.04.2016

ólia sobre meus braços
deitou há dois dias
uma balei'azul
e m'ergueu um abismo
de azul tão íngrime
quand'os olhos em mim
instalou balouçados

pelo ar

movente

perene

dos pulmões

e o pano azul sobr'as horas
acumuladas do seu corpo

e a balei'azul sobr'as horas
acumuladas do meu corpo

28.03.2016

ólia há três dias
me trouxe uma baleia
azul
e mais algo de modo azul que s'entornava
enquanto ólia movi'as mãos
sobre mim
m'impressiona porque ólia se move
e suas mãos têm cheiro
suas pálpebras
abaixam
levantam
e seus pulmões

eu comovi dez milhões de palavras
sem poder trazê-la

eu comovi dez milhões de palavras
sem poder trazê-la

há algo de eterno em cuidar
duma balei'azul

11.12.2015

nem era alguém apagar-se soba palavra
nem era não apagar-se soba palavra

média a voz que atravessa não ao meio de todas as coisas

14.11.2015

eu pedir'a ela nos tire do mundo
não era hora

hoj'eu acordei
e também ontem e ainda
antes de ontem eu acordei e hoj'
eu acordei e é infinito
como num desses dias em que acordei eu vi ólia
e como de modo que ólia exist'ela tem
acordado e mostra
é infinito
num desses dias em que acordei eu vi ólia
pela primeira vez
eu vi ólia
e pela primeira vez
eu a vi

e desd'a primeira talvez tenha dito não
e desta talvez já o não tenha dito
e desta já diga
não

mas hoje eu acordei
e eu vi ólia
e é infinito

26.01.2016

prallana

nós deitamos soba janela
ouvind'os tiros
mais a lua branc'
a um palmo de nós
e tivemos vontade
de fazer tudo
de novo e fizemos
nós deitamos soba janela
ouvind'os tiros
mais a lua branca
até o fim
e ficamos estiradas

somos duas palavras feias
e as coisas existem conosco

31.12.2015

eu nunca dei um cavalo a ólia
e todos nós sentimos muito
por ólia não ter nada
e ólia
não tem mesmo nada
muitas pessoas não têm
muitas coisas e por isso
nós realmente sentimos
sentimos muito
mas ólia nada
não tem mesmo nada
absolutamente
e eu sinto
não posso mais ver ólia
não a aguento mais
ver assim
o seu estado
a sua estrutura
óssea
a sua disposição
no espaço
o seu ar
nada
eu preciso dar-lhe uma parte
do corpo um dedo
meu uma orelha
ou cometer um crime
e contar-lhe
eu preciso dar um cavalo a ólia
mas não posso
dalguma forma eu gosto de ólia
não ter nada
e sinto
por isso
ólia não tem
realmente nada
nós sentimos muito por isso
nós não podemos fazer
realmente nada

24.12.2015

ser difícil distinguir o visível da dor
agor'essa lua inteira nos acomete
nos queima
não deveríamos pedir ajuda

11.12.2015

nem era alguém apagar-se soba palavra
nem era não apagar-se soba palavra

média a voz que atravessa não ao meio de todas as coisas

10.12.2015

você
não acorda
nem dorme
um cão
não acorda
um homem
nem dorme
um objeto
os objetos
no mundo
um objeto
não acorda
nem dorme
um sujeito
uma bacia
um verbo
no pretérito
não acorda
nem dorme
um dente
um troço
sem nome
não acorda
nem dorme
a sua saliva
seus ombros
o ar
que respira
não acorda
nem dorme
o cheiro das suas mãos
o outro objeto
um objeto
o objeto
aquele objeto
mais um
o cheiro das suas mãos
não acorda
nem dorme
o barulho
da cana
não acorda
nem dorme
um automóvel
sem gente
não acorda
nem dorme
uma gente
outra gente
uma quantidade
interminável
de gente
no mundo
o cheiro das suas mãos
não acorda
nem dorme
o mais importante
o mundo
outro
mais este
e um certo
número
de mundo
não acorda
nem dorme
o mais importante
o mundo
o mundo
ólia
o cheiro das suas mãos

03.08.2014

eu não sei quantas vezes passaram
por nós aquele cão aquele avião aquele filme
eu me lembro da primeira vez que viemos morar aqui
já se passaram tantas vezes sempre nos mudamos praqui
eu me lembro do que era sentir quando começaram a escrever aquela narrativa
nas pedras do campeche uma ilha parece estar sempre ligada
a outra: morávamos a norte
você o deserto eu o cerrado era o tempo
em que a única palavra em todas as línguas era sertão
a palavra pedra é fatalmente moderna a palavra sertão deu nome ao primeiro homem
eu me lembro de como ele era uma mulher e pronunciava articuladamente sErrtAum
você dizia mÊibi pronuncie articuladamente a palavra mÊibi parece o nome de uma mulher
ela dizia sErrtAum eu me lembro
de como a guerra era iminente de como ninguém mais se entendia depois das palavras
eu nunca mais consegui ler o poema nas pedras da capivara uma serra
parece estar sempre levando a outra e nós ouvimos alguém dizer vai haver um bolão para a guerra
nessa época poucas palavras existiam além de bolão para a guerra e a palavra sertão já tinha
perdido bastante seu valor
eu tenho uma relação bíblica com a palavra vez
eu me lembro muitas vezes eu sei muitas vezes nós moramos muitas vezes aqui
o cão o avião o filme passam continuamente em se deixando as vezes encontrarem-se
a única palavra que não se pode continuar é ilha
que portanto veio depois da guerra daquela guerra eu não lembro como ficou o bolão
a palavra sertão é a mais extensa é desde aquela mulher dizendo até hoje não terminou de ser dita
aquela mulher morreu dizendo ilha

14.11.2015

eu pedir'a ela nos tire do mundo
não era hora

hoj'eu acordei
e também ontem e ainda
antes de ontem eu acordei e hoj'
eu acordei e é infinito
como num desses dias em que acordei eu vi ólia
e como de modo que ólia exist'ela tem
acordado e mostra
é infinito
num desses dias em que acordei eu vi ólia
pela primeira vez
eu vi ólia
e pela primeira vez
eu a vi

e desd'a primeira talvez tenha dito não
e desta talvez já o não tenha dito
e desta já diga
não

mas hoje eu acordei
e eu vi ólia
e é infinito

16.11.2010

pramarina

devo-lhe ser este novembro custoso
como custaram-lh'as ingratas paciências
e o mês de agosto não de menos quando tolos
os meses se antecediam uns aos outros
antes embebia outras datas num só rolo
trouxe até a me pintar toda parede e a parede
que afaga a colorir seus outros dedos
e suas datas mais próximas apetecem ou descansam
aos arredores da casa sua
a sua vida é besta a sua vida é besta
e eu deitei-me sob ela
aos arredores da casa sua
a sua vida é besta a sua vida resvala
m'escorrendo da cabeça
entornando pelas eiras
e se correr à calha a esta altura
a sua vida me aproveit'eu já sou outra parede
a minha vida é besta a minha vida é besta

14.11.2015

eu pedir'a ela nos tire do mundo
não era hora

hoj'eu acordei
e também ontem e ainda
antes de ontem eu acordei e hoj'
eu acordei e é infinito
como num desses dias em que acordei eu vi ólia
e como de modo que ólia exist'ela tem
acordado e mostra
é infinito
num desses dias em que acordei eu vi ólia
pela primeira vez
eu vi ólia
e pela primeira vez
eu a vi

e desd'a primeira talvez tenha dito não
e desta talvez já o não tenha dito
e desta já diga
não

mas hoje eu acordei
e eu vi ólia
e é infinito

17.08.2014

mulher
em torço
a cabeça gira
precisamos comer

temos um bocado
nas mãos é pequeno
o tempo em que partilhamos
silêncio

hoje é
sempre foi
outro dia
amanhece mulher
precisamos comer

o dia se arrebenta os automóveis
os códigos inúteis da linguagem
se arrebentam
pra comer

mulher hoje a saudade
levou-me aos molhos
dum mar senfim de mil membros
batem-nos quaram-nos estamos
miúdas
precisamos comer

a hora de rir é tão grande
na varanda gelada o meu peito
mordia sua mão
não teríamos casa tão limpa
quanto aquele lugar
somos pobres
pequeninhas

a hora de te ver
de ter te visto
que horas agora

tão longe
sua morada
telefonar é difícl
haver hora é difícil
viver
precisamos comer

optaremos então certamente mulher
pelo trabalho das mãos
de comer com as mãos
e com elas tecer
e com elas correremos uma maratona
para cegos
que somos
amor
não há alimento no mundo
não há alimento no mundo
não há
escuta
as tuas mãos
seguram a hora
de morrer

você diz
tanto e ama
o que diz mulher
não mastiga
é calhau

09.10.2015

eu lhe faç'uma palavra co'a minha vid'inteira
são essa voz que lh'atravessa
todas as minhas idades

não m'exista mais sou o mundo
temente de mundo miúra

olh'as minhas mãos
não há nada

08.01.2015

pro nícollas ranieri

aquele dia você dizia
ter lido
ferram-se casas
constroem-se cavalos
aceita-se troca
quer-se dizer
de fato
era com essas coisas que podíamos
nos preocupar
meu filho
há nomes pra tudo
você sabe
nunca foi disso que falamos
cuidamos da ideia ancestral
de que os objetos no mundo
dalgum jeito e num modo
sequer propício
sentem um certo alívio
quando não vamos falar
e quando não usamos
aquela preposição
que supõe
uma ideia de coisa
ou uma quantidade
a convenção dum número
ou da escala diatônica
essas escolhas que por qualquer acaso
vêm nos acometendo
e às vezes calhando
esquecê-las
você dizia
meu prédio vem vindo
é preciso entender
a pedra que soluça
é só com o que temos
de nos preocupar
um dia você se pegou soletrando va ga ro sa men te
seu nome
e não atendeu
nem soube dizer
se aquilo era aquilo
o mais importante
foi termos um filho
sem nome
e tivemos
sem nome
os antigos diziam
ser preciso escolher palavras
quando ainda se é bem jovem
e esgotá-las as roupas
puí-las
até quando for o dia de morrer
não sabemos se das palavras ou daquele que as diz
mas o vocabulário ideal dum homem
limita-se às partes de seu corpo
que por ventura e inevitavelmente
tendem a mudar
de nome
quando em contato com os ares
disso ou daquilo
especialmente das coisas
quanto às quais não devemos
cuidar
era só ter dito meu corpo de quantidade variavelmente suposta
não acorda nem dorme
meu corpo diz
como quem vacila a vontade
de ter corpo
era só ter dito meu corpo quer dizer cócoras
meu corpo quer dizer fábulas
meu corpo quer dizer cátedras
meu corpo quer dizer suponha
que seu nome
fosse um ruído mais lentamente
pronunciado
e que isso que diz ser o seu nome
em verdade
fosse nome
doutro corpo
um dia você se pegou pronunciando seu nome
esperando outro nome
atender
até hoje

08.01.2015

o lugar
amolece
são casas
grandes
alagadas
há cem ou dois
mil anos
chove
as paredes
coalham
então se tira
alguém
de sua casa
há que se cuidar
dos pobres
diabos
que não moram
não ladram
os tetos
alinham-se
você tem
o algoz
nos sapatos
há trinta ou dez
mil anos
chove
alaga
a perda das consoantes
nas línguas
é inevitável
os tempos
são outros
os nomes
outros
os homens morreram
as mulheres magras
a queda
da consoante
intervocálica
é um jeito físico
de evolução
as casas coalham
as botas
ensopadas
você traz um algoz
nos pés lassos
o derretimento das solas
sobre as águas
é inevitável
as horas
nunca se acabaram
morre-se
antes delas
antes
o que havia
era um regime
de mãos
que se apiedam
mas cerram
e passam
homens mulheres
eram tirados
de suas casas
havia um lugar
que se prometia
alojem-se hoje
nas águas
há cinquenta ou trezentos
mil anos
que chove
e o torno
democrático
das águas
dispõe-se a todo
cidadão de bem
e de não tão bem
se alegra e dorme
nada se faz
contra a água
há milhões
mulher
de anos
que chove
e a cidade
coalha
as suas mortas
velhas
frouxas
ensopadas
roupas se vão
o derretimento
das oclusivas
consoantes
em molhadas
é inevitável
um jeito físico
e lenitivo
de evolução
as costas
das suas costas
sob vogais
recuadas
baixas
baixo das águas
suas costas
nas costas
coalham

14.11.2015

eu pedir'a ela nos tire do mundo
não era hora

hoj'eu acordei
e também ontem e ainda
antes de ontem eu acordei e hoj'
eu acordei e é infinito
como num desses dias em que acordei eu vi ólia
e como de modo que ólia exist'ela tem
acordado e mostra
é infinito
num desses dias em que acordei eu vi ólia
pela primeira vez
eu vi ólia
e pela primeira vez
eu a vi

e desd'a primeira talvez tenha dito não
e desta talvez já o não tenha dito
e desta já diga
não

mas hoje eu acordei
e eu vi ólia
e é infinito

14.10.2014

miúra olha minhas mãos
temos um amor grosso
com largura nosso sangue
corre e uns modos pequenos
de sentir dor
de pensar ao longo
c'uma gorda laranj'a
podrecendo nas mãos
miúra nós já passamos
todos aqueles diabos
que o mundo diz é preciso
dar cabo das coisas
ganhar viço
você diz er'aquela fome e o frio
e o calor um inferno
pass'ao largo balançand'as mãos
você sabe
dalgum modo estúpido e úmido
tudo se tem feito graça
aqui
que graça ter corpo
tomar porrada
mijar de manhã
nossos ossos teimosos
dormem mais que nós
miúra hoje vamos
deitar no chão mesmo
e tocar c'os mamilos
no piso gelado
e chorar de prazer
e de medo do gozo
e de culpa talvez
miúra me dá seus peitos
e vê minha testa franzida
e sente dó
esse mund'é tão grande
eu não sou ninguém

08.01.2015

miúra nós não sabemos
dramatizar co'esse mundo
as ruínas sobre as línguas
mas vai tudo bem
e dizer
só podemos dê-me o pão a bebida
e pagar
e comer
e beber afinal dizer boa noite
bom dia
quer dizer dê-me o pão
meu senhor a bebida
e pagar
miúra nos tire do mundo
mas está tudo bem
mas miúra não podemos
dizer mais que tudo
ou menos que isto
não podemos dizer que há coisas
mastigadas no pão
e que os braços
buscam tão longe
não o gesto
só a voz que não rasga
um farrapo qualquer
da história puída do mundo
a voz que o pão
não abraça
nem mastiga
mas bebe e miúra
nós vimos na saliva
tamanha linguagem
e no silêncio forjado
na maneira estúpida qu'inda temos
de mexer os braços
e pedir pelo pão a bebida pagar pelos braços
miúra essa vida
está tudo bem mas não há que podemos
dizer se vier-nos
deitar à cabeça
lembrança qualquer
do que é mesmo qu'existe
basta miúra
que façamos o gesto terrível
de comer
ou dizer e é pior
se dizemos
é pior se tentamos
gesticular
então vamos morrer nos teatros
ficar morrendo miúra e olhando
os olhos uma doutra
e ter preguiça
de tocar as ruínas
de compor um cancioneiro uma história do mundo qu'explique
a palavra isso
ou aquilo miúra
ou está tudo bem

31.08.2014

pro Nícollas Ranieri


sim seremos todos brutalmente

assassinados dia ou outro
meu filho
como foram nossos pais
ainda que vivos ainda
e se o sabemos
vai tanto tempo
já não sabemos quais cadeiras a metonímia
de quais casas da família

mas temos impressões tão largas

e mesmo isso
é perder-se

o tempo está parado e você se deita
isso que dizes de mundo girar
são cães afora
seus ossos

uma pessoa assim pode deitar trinta vezes
sem se ter levantado
meu filho

sabe que posso te chamar meu filho
eu sou uma mulher
e isso é imenso
tenho um par de mil seios
pro mundo

e tivemos um filho
que não me deixa dormir
nunca deixou
na verdade

deite firmemente quantas vezes
for de deitar
adormeça as buscas
recolha o mar
que te desvela
o mesmo mar

deixa seus ossos crescendo sem consentimento
é uma maravilha
não fosse haveria um outro nome
meu filho
pra maravilha

18.01.2015

agora nós nos amamos
o sol grosso nas cigarreiras
amolece a vida dos homens
e o trabalho
(gordurosas horas)
se confunde cos braços

agora nos dizemos vem elleninha
me faz umas três meninas
já me pôs lombriga feijão na barriga
que custa m'embuchar duns mais

eu sei o mundo está cheio
de ruídos sem mãos
mas é tarde
pra dizer ao outro

que quando anoitece vazias
cremos também no silêncio
temos calor
respiramos

na verdade a idade
elleninha em qu'estamos
tem o cheiro antigo das mães
e já não é muito que queremos
da vida

um pouco d’água em seu lado
e qualquer medo forasteiro
vez ou outra vir à casa
nos distrair

e já nem procuramos
a palavra que toa
com o sol fatigado
dos nossos trabalhos

a palavra que toa
c'os pobres que bebem
sob as cigarreiras
que riem magros

a palavra que toa
co'a estúpida tarde
que deixou roubarmos
no supermercado

a palavra que toa
co'a infante manhã
a pedir que comamos
que mais hoje comamos

a palavra por fim que toa
co'a impressão infinita
de estarmos todos
já condenados
e estarmos todos
já perdoados

e estarmos ferro
e estarmos cana
e estarmos pedra
e estarmos lassos

e de estarmos salvos
elleninha

porque danados

elleninha são só três meninas
e seremos pra elas
nossos quatro seios
donde vão sugar

e há mais mulher
temos braços

11.08.2014

aquele dia do passarinho na enxurrada quase morri
filho dalguém sentia frio ia morrer molhado sozinho
o mundo é grande meninos doem também eu não vi
abatedouro mulheres ganidas as voçorocas
eu não vi
a qualidade da comida feder mijo na beira do biloca
no bairro das pinhas
o lixo o abricó que clementina
cos dedos puía
eu não vi quando meu irmão se espatifou pela escada
seu braço esquerdo eu vi só seus ossos fazendo ilhas
quase morri
eu não vi o sangue da clementina afogar o abricó
na beira do biloca aquele dia
eu vi o filho dela de maldade esmagar um passarinho
pobre niño
quase morri
quase morri sonhando que voava de balão no bocadinha
saindo do bocadinha eu vi o gerson de cima
pra igreja co'a bíblia fedendo a família
o gerson não quis pitú aquele dia
quase morri
na quartafeira foi greve das moças
os homens desceram o biloca das pinhas
chegaram em casa lastraram dolores
que eu não vi
o mundo é grande os músculos doem
os mortos ambulam eu não vi
eu não vi o deus me cegando vinte dias atrás aquele dia
aquele deus lasso enviesado me fez um trabalho que eu não vi
vinte dias que vem m'assolando
que vem m'assolando uma urgente
vontade doente
meu deus de parir

18.08.2014

tens os olhos alegres
tristes
'tudo que age é uma crueldade'
a porta já sendo porta atrás de ti
e daqui tuas costas tão bonitas
- o drama do teu corpo no além-porta
é real. o invisível
só o gesto sem teus olhos é deserto
alegres
são tristes
'esse teatro de quintessência
onde as coisas dão estranhas meias-voltas antes de voltar
à abstração'
a verdade como aspas chuvosas
nessas terras de portas
ao teu silêncio é ode
amor.

14.11.2015

eu pedir'a ela nos tire do mundo
não era hora

hoj'eu acordei
e também ontem e ainda
antes de ontem eu acordei e hoj'
eu acordei e é infinito
como num desses dias em que acordei eu vi ólia
e como de modo que ólia exist'ela tem
acordado e mostra
é infinito
num desses dias em que acordei eu vi ólia
pela primeira vez
eu vi ólia
e pela primeira vez
eu a vi

e desd'a primeira talvez tenha dito não
e desta talvez já o não tenha dito
e desta já diga
não

mas hoje eu acordei
e eu vi ólia
e é infinito

bakhtiniana para miúra

eu lhe faç'uma palavra co'a minha vid'inteira
são essa voz que lh'atravessa
todas as minhas idades

não m'exista mais sou o mundo
temente de mundo miúra

olh'as minhas mãos
não há nada

17.08.2015

o cidade espantou minh'amor
a deixou
cheia de magrezas
o cidade perdeu suas vigas
suas próprias tripas
eu não quero mais respirar contigo
eu não quero mais repirar
contigo
derreter a cabeça na tu'avenida
eu vou sozinha
morrer
contigo

17.04.2015

então o poema não resolve tud'o mundo
pega vai e não coisa
não há nada que haja no mundo
ou ele não é o isto e o aquilo travesti das bocadas
eu esperava mais que ele fosse travesti das bocadas
eu queria que o isto m'encostava que nem se fosse de rocha mesmo
eu queria que o isto me relasse inteira os bagalos
tudomolhado
e bem nem
eu tenho pa vor da palavra
pa vor da palavra
eu tenho pavor
da palavra
e o cara pega
vai e não
resolve













09.03.2015

miúra foste só
o barro maior em que m'estive
silêncio voz aluvião
no mais o peito
todo edifício
desfaz-se ou nunca
sequer havido
empoeir'a cidade
um cão s'espreguiça sobas cinzas
é como ter dito
miúra é lindo
morrer contigo
mas deix'o bicho
sumir em paz

há vinte séculos
no centro dessa pedra
ruído enorme
trinca-m'os ossos
espera do teu nome
língu'absurda

oração

eu beijei montenegrita uma mulher linda
na escadaria desta igreja
não me podes violentar a cabeça ou os braços
ou os desejos tu não deves fazer
mesmo que por esta igreja
o deus é horrível irmão
deixa que ele morra e desmoronem todas as suas casas
não pode ele imaterial ocupar tanto espaço no mundo
tão pesados os braços
há pessoas dormindo no inferno
ou chamemos isto de ruas
eis o mundo de tuas mãos
o homem tão alvo viajando com sua família
tira-nos o prato de frente da boca
este é urgente que morra
ainda que sem sofrimento
que simplesmente não exista
mais que só deixar de existir
não vês que o homem de bem
é o mais cruel entre os deuses? e come
a todos nós os miseráveis
não m’arranque também o beijo que m’alimenta
a alma ou carne que o valha
eu não quero me proteger do teu cão
nem ver apanhar montenegrita
uma mulher linda
por estarmos nos desejando à pública luz do dia
por molharmo-nos desde os olhos
e fazermos exalar o cio de nossas partes mais primitivas
que bem conheces irmão
é também nossa a boceta de onde saíste
e é das nossas tetas que ainda te alimentas
então como também tua mãe eu devo
e vou a pedir
que olhes as tripas daquilo que tens construído no mundo
que te dissolvas com elas
e te esqueças de haver
que te distraias daquilo que chamas a tua pessoa
é preciso que morras irmão
a saber que jamais te odiamos
e celebra meu filho
a tua morte infinita

22.02.2015

para montenegrita


sentar num banco de pedra
o corpo infesto
de ouvidos de olhos
ter medo da faun'escura da hora
os homens podem querer teus pés
levá-los
sentar o corpo num banco de pedra
frente aos patos ignóbeis
que jamais se interessariam pelos postulados que inscrevemos sobre a pedra dum banco de pedra
mas se comovem e explodem
se fundo nos olhamos
sentar e ter gozo em trocar
patos por gansos ou cotias o mundo
não quer de nós
que saibamos seus nomes
e menos os nossos
o mundo não quer de nós
nada e vamos supor que um pato tenha nos acometido
e que pensássemos nele
com miúdos pensamentos
é duro inscrever-se nessa pedra montenegrita
cravar-nos aos sulcos verter toda alma
ao lado oposto da pedra
montenegrita
vamos supor qu'este banco não forjasse um'aldeia
aos jardins cheirosos dum condomínio
e que lá dentro felizes dormissem
os homens
vamos supor que não saibam
que nos devoram e fartam-se
do absurdo que não temos
um menino assombrado levou teus pés
e ciscou com eles
e nós rimos e o imitamos como por amor
aos meninos horríveis
de quem sugamos
ainda era carnaval e já falávamos sobre a pedra
montenegrita talvez seja mais delicado
que deixemos o todo de lado
tais palavras duras
e olhemo-nos fundo
e tu te entr'em meus olhos e dorme
teus dez minutos de fuinha

13.01.2015

miúra ninguém sabe o que era
acordar às manhãs de quando
comer inda não fazia
matar-se todo
miúra nem nós sabemos
comemos pouco
mais nos matamos
mas vamos miúra vamos

ellena - décimo sexto diálogo

o lugar
amolece
são casas
grandes
alagadas
há cem ou dois
mil anos
chove
as paredes
coalham
então se tira
alguém
de sua casa
há que se cuidar
dos pobres
diabos
que não moram
não ladram
os tetos
alinham-se
você tem
o algoz
nos sapatos
há trinta ou dez
mil anos
chove
alaga
a perda das consoantes
nas línguas
é inevitável
os tempos
são outros
os nomes
outros
os homens morreram
as mulheres magras
a queda
da consoante
intervocálica
é um jeito físico
de evolução
as casas coalham
as botas
ensopadas
você traz um algoz
nos pés lassos
o derretimento das solas
sobre as águas
é inevitável
as horas
nunca se acabaram
morre-se
antes delas
antes
o que havia
era um regime
de mãos
que se apiedam
mas cerram
e passam
homens mulheres
eram tirados
de suas casas
havia um lugar
que se prometia
alojem-se hoje
nas águas
há cinquenta ou trezentos
mil anos
que chove
e o torno
democrático
das águas
dispõe-se a todo
cidadão de bem
e de não tão bem
se alegra e dorme
nada se faz
contra a água
há milhões
mulher
de anos
que chove
e a cidade
coalha
as suas mortas
velhas
frouxas
ensopadas
roupas se vão
o derretimento
das oclusivas
consoantes
em molhadas
é inevitável
um jeito físico
e lenitivo
de evolução
as costas
das suas costas
sob vogais
recuadas
baixas
baixo das águas
suas costas
nas costas
coalham

08.01.2015

pro nícollas ranieri

aquele dia você dizia
ter lido
ferram-se casas
constroem-se cavalos
aceita-se troca
quer-se dizer
de fato
era com essas coisas que podíamos
nos preocupar
meu filho
há nomes pra tudo
você sabe
nunca foi disso que falamos
cuidamos da ideia ancestral
de que os objetos no mundo
dalgum jeito e num modo
sequer propício
sentem um certo alívio
quando não vamos falar
e quando não usamos
aquela preposição
que supõe
uma ideia de coisa
ou uma quantidade
a convenção dum número
ou da escala diatônica
essas escolhas que por qualquer acaso
vêm nos acometendo
e às vezes calhando
esquecê-las
você dizia
meu prédio vem vindo
é preciso entender
a pedra que soluça
é só com o que temos
de nos preocupar
um dia você se pegou soletrando va ga ro sa men te
seu nome
e não atendeu
nem soube dizer
se aquilo era aquilo
o mais importante
foi termos um filho
sem nome
e tivemos
sem nome
os antigos diziam
ser preciso escolher palavras
quando ainda se é bem jovem
e esgotá-las as roupas
puí-las
até quando for o dia de morrer
não sabemos se das palavras ou daquele que as diz
mas o vocabulário ideal dum homem
limita-se às partes de seu corpo
que por ventura e inevitavelmente
tendem a mudar
de nome
quando em contato com os ares
disso ou daquilo
especialmente das coisas
quanto às quais não devemos
cuidar
era só ter dito meu corpo de quantidade variavelmente suposta
não acorda nem dorme
meu corpo diz
como quem vacila a vontade
de ter corpo
era só ter dito meu corpo quer dizer cócoras
meu corpo quer dizer fábulas
meu corpo quer dizer cátedras
meu corpo quer dizer suponha
que seu nome
fosse um ruído mais lentamente
pronunciado
e que isso que diz ser o seu nome
em verdade
fosse nome
doutro corpo
um dia você se pegou pronunciando seu nome
esperando outro nome
atender
até hoje

08.01.2015

miúra nós não sabemos
dramatizar co'esse mundo
as ruínas sobre as línguas
mas vai tudo bem
e dizer
só podemos dê-me o pão a bebida
e pagar
e comer
e beber afinal dizer boa noite
bom dia
quer dizer dê-me o pão
meu senhor a bebida
e pagar
miúra nos tire do mundo
mas está tudo bem
mas miúra não podemos
dizer mais que tudo
ou menos que isto
não podemos dizer que há coisas
mastigadas no pão
e que os braços
buscam tão longe
não o gesto
só a voz que não rasga
um farrapo qualquer
da história puída do mundo
a voz que o pão
não abraça
nem mastiga
mas bebe e miúra
nós vimos na saliva
tamanha linguagem
e no silêncio forjado
na maneira estúpida qu'inda temos
de mexer os braços
e pedir pelo pão a bebida pagar pelos braços
miúra essa vida
está tudo bem mas não há que podemos
dizer se vier-nos
deitar à cabeça
lembrança qualquer
do que é mesmo qu'existe
basta miúra
que façamos o gesto terrível
de comer
ou dizer e é pior
se dizemos
é pior se tentamos
gesticular
então vamos morrer nos teatros
ficar morrendo miúra e olhando
os olhos uma doutra
e ter preguiça
de tocar as ruínas
de compor um cancioneiro uma história do mundo qu'explique
a palavra isso
ou aquilo miúra
ou está tudo bem

08.01.2015

parajoicemarceloericaguilhermezé


e soment'essas mãos tardias de nossos corpos
vão a lá saber
de que é um parélio feito
e de que trataremos a quando chegarmos
pois a lá vamos chegando
em depois das mãos e comemos
enormes
co'as mesmas mãos
tardias que temos
e saber podem lá que ainda
nem meninos somos nem nada
temos um cado a dizer mas as mãos
antes nos trazem
aladas
e dizem saber lá de que se faz
um parélio um cacho
de dentes sadios
ah o dia em que teremos há de
chegar e seremos um corpo
de dentes sadios de viço
e vontades órfãs que afinal já as temos
que é só do que tratam tardias as mãos
que nos parem aos montes meninos
nós ainda nem somos e um bocado enorme
de cois'a falar
temo só que nos venha um di'atracar
um ataque de cócega então pobre mundo
se vem a rachar
a trincar mil pedaços dar cabo de tudo
num gozo de mort'uma morte solar
de que é feit'um parélio
uma rua
cidade ou canteiro
inundados de mãos que não somos
nem meninos ainda

08.01.2015

para magnina

tinha um jaguar hoje de manhã
sob a pele do pescoço
o seu
tinha uma veia mais que todas
do jaguar
pulsando um sangue custoso
sob a pele do pescoço
o seu pescoço
guarda um jaguar
dormindo louco
hoje a manhã de cabeça pendendo
um pêndulo bêbado
me envergava e eu sabia
que era preciso correr sobre a cama
encontrar os dias
que dormem conosco
eu toquei o jaguar com dois dedos
sujos
e abracei sua casa
e cheirei o seu corpo até o fim
eu toquei o jaguar e a manhã arredou-se
e arrepiamos ao ouvir
a palavra trabalho
é tão frio tomar o dia nas mãos
e apertá-lo
c'os dedos sujos
e dizer são horas
e arrepiamos ao ouvir seu jaguar
me dizer vai embora
as horas
querem passar

ellena - segundo diálogo

agora nós nos amamos
o sol grosso nas cigarreiras
amolece a vida dos homens
e o trabalho
(gordurosas horas)
se confunde cos braços

agora nos dizemos vem elleninha
me faz umas três meninas
já me pôs lombriga feijão na barriga
que custa m'embuchar duns mais

eu sei o mundo está cheio
de ruídos sem mãos
mas é tarde
pra dizer ao outro

que quando anoitece vazias
cremos também no silêncio
temos calor
respiramos

na verdade a idade
elleninha em qu'estamos
tem o cheiro antigo das mães
e já não é muito que queremos
da vida

um pouco d’água em seu lado
e qualquer medo forasteiro
vez ou outra vir à casa
nos distrair

e já nem procuramos
a palavra que toa
com o sol fatigado
dos nossos trabalhos

a palavra que toa
c'os pobres que bebem
sob as cigarreiras
que riem magros

a palavra que toa
co'a estúpida tarde
que deixou roubarmos
no supermercado

a palavra que toa
co'a infante manhã
a pedir que comamos
que mais hoje comamos

a palavra por fim que toa
co'a impressão infinita
de estarmos todos
já condenados
e estarmos todos
já perdoados

e estarmos ferro
e estarmos cana
e estarmos pedra
e estarmos lassos

e de estarmos salvos
elleninha

porque danados

elleninha são só três meninas
e seremos pra elas
nossos quatro seios
donde vão sugar

e há mais mulher
temos braços




[publicado no blog da confraria]

16.10.2014

todos os sonhos são seus
escuta
um coração bater balouç'a água
da sua cabeça
três meninos morrem ao sol
são os seus sentimentos c'o mundo
'meus pêsames, senhor deus, meus pêsames'
nem reconheç'um'assim sua voz
afogand'os espelhos
castigados de luz
mas os sonhos miúra
os sonhos
todos são seus e os sons
são das suas ferrilhas
e miúra nossas filhas
são maiores que nós
são enormes
tenh'uns sonhos seus vez ou outra
e num eu fiquei tão bonita
que m'emocionei
cê me dava seus peitos e ria
eu bebia seu leite miúra
e meu leite enxurrando nas ruas
fez as gentes ter você sabe
um medo contente da vida
miúra que tolo é sonhar
basta que nos deixemos
sair sem a paga
a comer não nos obrigaram
a dançar
a ter sono
não sei que digo iss'é isso
mas um lugar mudo
u'a marcenaria
um quintal
e seus sons
seus sons sossegand'a horta
um morrer sem lugar
mas miúra se nos amamos
três meninos morrem ao sol
é preciso compor um lamento
co'a palavra mar
maior que muro
co'a palavra murro
maior que dar
mas miúra nosso amor é grosso
ter sangue só já não basta
e aind'é tudo

14.10.2014

miúra olha minhas mãos
temos um amor grosso
com largura nosso sangue
corre e uns modos pequenos
de sentir dor
de pensar ao longo
c'uma gorda laranj'a
podrecendo nas mãos
miúra nós já passamos
todos aqueles diabos
que o mundo diz é preciso
dar cabo das coisas
ganhar viço
você diz er'aquela fome e o frio
e o calor um inferno
pass'ao largo balançand'as mãos
você sabe
dalgum modo estúpido e úmido
tudo se tem feito graça
aqui
que graça ter corpo
tomar porrada
mijar de manhã
nossos ossos teimosos
dormem mais que nós
miúra hoje vamos
deitar no chão mesmo
e tocar c'os mamilos
no piso gelado
e chorar de prazer
e de medo do gozo
e de culpa talvez
miúra me dá seus peitos
e vê minha testa franzida
e sente dó
esse mund'é tão grande
eu não sou ninguém

31.08.2014



pro Nícollas Ranieri


sim seremos todos brutalmente

assassinados dia ou outro
meu filho
como foram nossos pais
ainda que vivos ainda
e se o sabemos
vai tanto tempo
já não sabemos quais cadeiras a metonímia
de quais casas da família

mas temos impressões tão largas

e mesmo isso
é perder-se

o tempo está parado e você se deita
isso que dizes de mundo girar
são cães afora
seus ossos

uma pessoa assim pode deitar trinta vezes
sem se ter levantado
meu filho

sabe que posso te chamar meu filho
eu sou uma mulher
e isso é imenso
tenho um par de mil seios
pro mundo

e tivemos um filho
que não me deixa dormir
nunca deixou
na verdade

deite firmemente quantas vezes
for de deitar
adormeça as buscas
recolha o mar
que te desvela
o mesmo mar

deixa seus ossos crescendo sem consentimento
é uma maravilha
não fosse haveria um outro nome
meu filho
pra maravilha

sturdia

hoje no bocadinha ninguém fala ninguém liga
que o vargalosa sumiu
sonhei que a eleninha m'embuchava d'ua menina
ninguém liga o vargalosa deve estar bebendo algures
ninguém liga pra menina que hoje cedo eu não pari
ninguém fala algures no bocadinha
fui pra beira do biloca um fedor de carniça
caçar uma palavra pra falarem pr'eu ouvir
no bocadinha falta palavra assim pra quando
quer dizer assim que onde
é n'algum lugar assim
e se eu achar o vargalosa
e se eu achar minha menina
volto do biloca sem palavra
e digo pra eleninha
que por enquanto
fica algures
e calo


artaudiana para ...



tens os olhos alegres
tristes
'tudo que age é uma crueldade'
a porta já sendo porta atrás de ti
e daqui tuas costas tão bonitas
- o drama do teu corpo no além-porta
é real. o invisível
só o gesto sem teus olhos é deserto
alegres
são tristes
'esse teatro de quintessência
onde as coisas dão estranhas meias-voltas antes de voltar
à abstração'
a verdade como aspas chuvosas
nessas terras de portas
ao teu silêncio é ode
amor.